RECHEIO — Fazenda de clipes
#107 - A ciência de transformar segundos de atenção em milhões de views
Sabe quem venceu a guerra dos streamings, depois de bilhões e bilhões de dólares investidos na produção de séries e filmes?
Vídeos curtos
A própria Netflix, por exemplo, já antecipou para seus investidores um novo feed vertical para celular. Ele deve funcionar aos moldes do TikTok e servir para atender a uma demanda da Geração Z, que prefere esse tipo de formato para descobrir novos conteúdos.
É um efeito direto de uma mudança de comportamento que rapidamente moldou o nosso consumo de conteúdo: a preferência por vídeos rápidos, clipados e que tragam um resumo completo de algo mais profundo.
Pense nos trailers antes do filme. Ou nos trials antes do download. O test-drive antes da compra. Pois é, até para assumir compromisso com a nossa atenção a gente ficou mais chatos exigentes.
Uma pesquisa recente da YouGov feita no Reino Unido revelou que, enquanto públicos 55+ preferem assistir conteúdos de séries, quem tem entre 16-24 anos prefere os vídeos curtos. E, embora para 87% do público da Geração Z ver um trecho de uma série gerou interesse ir atrás do conteúdo completo, 69% dos jovens afirmaram que assistiram clipes de programas, filmes ou séries nas redes sociais ao invés da versão integral.
E não é só na Europa. Uma pesquisa recente feita na Índia também colheu opiniões de jovens, incluindo crianças, sobre a preferência por conteúdos curtos. O resultado não surpreende. Mesmo a partir dos 11 anos, 48% dos entrevistados afirmam ver Reels ou Shorts mais de 5 vezes ao dia.
Não basta mais criar conteúdos instagramáveis ou em uma linguagem que renda cortes. A coisa já foi muito além, desenvolvendo um novo tipo de talento que se tornou fundamental para que qualquer produção tenha alcance nas redes sociais.
A vez dos Clipadores
Como a maioria dos movimentos difundidos hoje na internet, começou com os games. Com transmissões de horas e horas na Twitch, onde jogadas de maior destaques eram recortadas para virar destaques.
Mas a visibilidade começou a crescer nos podcasts. Como o formato nunca foi amigável para divulgação nas redes sociais, a solução foi cortar trechos das conversas, reduzir as pausas entre as falas, colocar legenda e espalhar pelo Instagram.
Deu certo. E hoje, tem muito podcast que é mais conhecido pelos trechos do que pelos episódios completos.
Daí o formato migrou para o mundo dos esportes e explodiu. Melhores momentos de jogos de futebol sempre foram parte da cultura esportiva e, no mundo online, eles puderam ganhar novos ares com pitadas de entretenimento, memes e comentários.
Logo, qualquer evento ao vivo passou a ser mais consumido em sua versão resumida do que na transmissão real.
Quer um exemplo claro? Os Oscars deste ano tiveram uma queda de 9% na audiência ao vivo em relação a 2025. Um fracasso? As visualizações dos posts e vídeos sobre a cerimônia cresceram 42,4%. Enquanto 17,86 milhões de pessoas viram a festa ao vivo, 129 milhões assistiram os clipes.
Criar uma boa estratégia de clipes virou fundamental
Agências são responsáveis por montar equipes inteiras e contratar editores especializados. Muitos deles são pagos a partir da performance de alcance de seus cortes.
Não é apenas o trabalho de cortar trechos e legendar. É encontrar os momentos mais viralizáveis em qualquer conteúdo, editar com a trilha certa e o ritmo mais envolvente. Uma ciência de transformar segundos de atenção em milhões de views.
Dá uma olhada na lista de cursos para clipador que existem no Hotmart hoje. Tem pra tudo: marketing digital, religioso, games… E a gente sabe bem como isso vai ser usado nas eleições deste ano. Debates hoje são só material bruto para virar milhares de clipes.
Existem também ferramentas que prometem atingir o mesmo resultado de um Clipador profissional apenas com o uso da IA, como o Panda e o Opus.
Vídeos & clipes
O mais importante a se levar em conta sobre todo esse movimento é que o conteúdo completo e os cortes viraram coisas completamente diferentes. Não basta tratar o clipe como uma simples parte do processo de edição. Ele depende de um olhar especializado, de preferência por pessoas que entendam os diferentes sinais de engajamento que plataformas como Instagram, TikTok e YouTube Shorts possuem.
Afinal, se os vídeos curtos são formatos de descoberta para os jovens seguirem para os conteúdos profundos, significa que ainda vale a pena apostar nos dois. Mas se no passado as estratégias eram um simples desdobramento, hoje elas devem andar em paralelo, mas com muitas conexões entre si.
Entenda: os vídeos curtos se tornaram a vitrine. O primeiro ponto de consideração não apenas para o seu conteúdo completo, mas para os pilares, valores e o tom da sua marca. Precisa ser interessante e, mais importante, ser capaz de sintetizar os diferenciais do seu conteúdo.
Que ironia. A MTV pode até ter morrido, mas a cultura de ver clipes segue vivinha entre os jovens.
DESCOBRINDO PODCASTS
No ano passado, o Spotify começou a testar o recurso de criação de playlists por IA. Além de usar prompts para escolher músicas a partir de gostos, indicações ou estilos similares, o recurso também considera todo o seu histórico de plays desde seu primeiro dia na plataforma. A novidade, agora, é que isso também poderá ser usado para criar playlists de podcasts. A função vai ser acionável por um botão, que abre um prompt onde você pode escrever “podcasts de crimes reais no Brasil”, por exemplo, e escolher a frequência de atualização e duração dos episódios.
A empresa espera que isso amplie a descoberta de novos podcasts pela audiência. Aliás, segundo o Spotify, mais de 34 milhões de podcasts são descobertos pela primeira vez toda semana no app. Talvez o próximo possa ser da sua marca (se você finalmente começar a produzir um).
CRIAÇÃO PAGA
Desde 2011, o Picsart é referência na criação de imagens para uso em social, com filtros, montagens e edições práticas. E agora eles estão se reinventando para colocar criação por IA como prioridade e, de quebra, posicionar a plataforma para creators que querem se profissionalizar. Uma das iniciativas para isso é um novo programa que vai pagar pelo resultado que as pessoas atingirem com as criações feitas na plataforma. Os inscritos não precisam ter um número mínimo de seguidores, basta criar um cadastro e acompanhar os desafios da plataforma como, por exemplo, “gerar um animal fofinho através do Pics Aura”, e publicar em suas redes sociais. A remuneração será calculada com base no número de likes, comentários e alcance.
TESTE O REELS
Você tem usado o Trial Reels? O recurso permite publicar um vídeo de maneira limitada no Instagram exclusivamente para um público que não segue o seu perfil. Ideal para testar novas ideias fora do padrão e medir a temperatura antes de liberar para mais pessoas. Desde o lançamento, segundo a meta, o alcance de posts entre não seguidores cresceu 80% na plataforma e o resultado empolgou. Como nova possibilidade, os usuários vão poder agendar as publicações de Trials, garantindo maior controle sobre os testes e a efetividade de cada publicação.
FEIRA DAS FRUTAS
Não foram nem 6 dias após a publicação da edição passada da RECHEIO para já surgir um universo de versões brasileiras do “reality show de namoro de frutas”.
Ou seja, você pode até achar que eu falo besteira, mas tenha certeza que são as besteiras que logo todos estarão falando.
No TikTok, a tag #frutas já acumula mais de 838 mil vídeos publicados, todos feitos com IA e com estilo 100% PT-BR, tanto nos enredos quanto nos personagens (muitos deles pouquíssimo recomendados para crianças). O movimento realmente já tomou uma grande camada da plataforma e é interessante notar como fomentou uma exploração por parte de alguns perfis de creators.
Um exemplo é o Frutslandia. Até o dia 27/03, o perfil era apenas mais um do TikTok, com vídeos genéricos e experimentos de IA. Mas, no dia 30/03, foi publicado o “O suco da traição - parte 1” (não existe parte 2) e veio a explosão. O vídeo registra 124 mil views, mas já foi seguido por outros 8, alguns deles com mais de 11 milhões de visualizações. O perfil agora até oferece publi.
Estou surpreso em não ter encontrado nenhuma marca embarcando nessa trend (pelo menos até a publicação desta edição).
ATRIBUA DIREITO
Depois de muita espera (e muito choro) o Google resgatou do antigo Analytics o relatório de Conversão Assistida. A funcionalidade é fundamental para ter atribuições mais precisas na hora de descobrir, afinal, qual foi a origem que garantiu a melhor conversão.
Enquanto no modelo padrão de plataformas como Meta e Google Ads a atribuição pode ser feita até dias depois do clique, no GA4, o padrão era atribuir apenas ao Last Click, ou seja, o último canal a receber clique. E dá-lhe Direct como canal de conversão final.
Para entender melhor como acompanhar isso e entender, por exemplo, como seus conteúdos orgânicos impactam a jornada, é fundamental entender a fundo esse relatório. No vídeo abaixo tem um ótimo resumo feito pela Métricas Boss.
BOCADITOS
Links rápidos para leituras demoradas.
• Por que as melhores equipes sociais planejam com 30 dias de antecedência [Later]
• O Google terminou seu Core Update de março [Search Engine Land]
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Por Alberto Cataldi, diretor de marketing e jornalista. Me segue lá no Linkedinho que também compartilho coisas deste universo (e memes).
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