RECHEIO — SLOP
O som que um conteúdo faz quando é feito 100% de chorume digital
#️⃣ Edição 103
A ERA SLOP
Lembra lá no início da onda da Inteligência Artificial? Todo mundo querendo aprender como estudar, como usar, como explorar todo o potencial? Um mundo de possibilidades que deixava todos igualmente empolgados e assustados. Lá no longínquo ano de… (checa anotações) 2024.
Um primeiro grande impacto do volume de produções por IA, o chamado Conteúdo Sintético, foi sentido lá no Facebook. Eu cheguei até a fazer uma das minhas edições favoritas da RECHEIO ao falar a respeito do tema.
A Era do Conteúdo Sintético mostra uma tecnologia amplamente utilizada para tirar proveito das regras que as próprias plataformas criaram para gerar alcance e resultado. Facebook, YouTube, Google, TikTok… todas são alvo.
Bem, lá se vai mais de um ano e as coisas não ficaram mais simples de entender.
O FB, como sempre, foi o marco zero de um comportamento que se espalhou por todas as outras plataformas sociais e criou um verdadeiro multiverso de conteúdos por IA. Ele se aprimorou, cresceu, espalhou e tomou conta. E sabe onde isso se tornou inescapável?
O YouTube, que já foi no passado a mais humana das plataformas — afinal, era o espaço dos vlogs, das lives de conversa e dos reacts — agora virou um grande depósito de conteúdos de Inteligência Artificial.
Seja nos temas (com canais inteiros dedicados a ensinar e dar dicas), seja nas produções. Hoje, o YouTube é seguramente o melhor lugar para ficar por dentro de qualquer aspecto do assunto Inteligência Artificial.
Inclusive, eu recomendo pesquisar lá mais do que no próprio Google, que simplesmente parece ter sido destruído na usabilidade depois de tantas mexidas por parte da Alphabet para integrar recursos que ninguém queria.
Porém, todo esse avanço veio com o um custo.
Já está embutido na cultura do YouTube: se um tema está em alta, ele vai ser MUITO utilizado, especialmente por criadores que ganham a vida com cada centavo recebido na impressão de anúncios. E a lógica nessa hora é fácil:
Melhor priorizar o algoritmo do que a qualidade
Sabe aquele tipo de conteúdo bizarro feito por IA que eu comentei lá naquela edição da RECHEIO? Hoje ele já tem nome: slop.
É todo conteúdo de grande volume e baixa qualidade feito com Inteligência Artificial basicamente para floodar as redes sociais em busca de views, likes e engajamento. Na tradução original significa lama ou restos, mas no contexto atual parece o som que um conteúdo faz quando é feito 100% de chorume digital.
E nada mais justo para o YouTube virar líder em temas de IA e em slop de IA também.
Esses vídeos estão ocupando os feeds das pessoas em tamanho volume que até as marcas anunciantes começaram a se incomodar. Afinal, que empresa quer aparecer anunciando em conteúdos de deepfake.
Sem falar no impacto na formação da infância já que — sim, você adivinhou — até o YouTube Kids está tomado de vídeos de slop que podem estar afetando seriamente o desenvolvimento de crianças.
Em um post sobre as prioridades para 2026, o CEO da plataforma, Neal Mohan, tratou de vários temas e entre eles (de um jeito até tímido) uma meta de gerenciar melhor o AI Slop.
“Para reduzir a propagação de conteúdo de IA de baixa qualidade, estamos desenvolvendo ativamente nossos sistemas estabelecidos que têm tido muito sucesso no combate a spam e clickbait e na redução da propagação de conteúdo repetitivo e de baixa qualidade.”
Parece pouco… E é bem pouco, mesmo.
O que o YouTube sabe (e que você precisa saber) é que as pessoas seguem achando que conteúdos de IA de baixa qualidade são bem ruins. Em uma pesquisa quentinha, apenas 26% dos americanos dizem gostar de Inteligência Artificial, enquanto 46% só têm coisas negativas pra dizer sobre a tecnologia.
Não basta apenas ter o cuidado em não produzir coisas assim para sua marca, mas também monitorar bem onde seus anúncios podem estar aparecendo.
Produzir conteúdo de qualidade se tornou mais estratégico do que nunca. Ao invés de utilizar as ferramentas e possibilidades da IA para ter mais capacidade de produção, qualidade e alcance, as pessoas passaram a criar verdadeiras máquinas para emporcalhar as plataformas com conteúdo ruim.
Mas não se engane: as pessoas ainda querem conteúdo e ainda querem qualidade. Só ficou mais difícil encontrar (e confiar). Ou seja, conteúdo e relacionamento ainda vale mais do que alcance e IA.
[Para saber mais] Artigo da BBC sobre AI Slop e a nova era das redes sociais.
COMO ANDA O ENGAJAMENTO?
Será que o TikTok é a promessa que nunca se realiza? Apesar de ter uma audiência imensa e ocupar praticamente 2 horas por dia da rotina dos brasileiros, tem sido impossível para as marcas cravarem um espaço forte por lá, mesmo com a ajuda de creators.
Há esperança. Em um novo relatório de benchmark feito pela Emplifi com 200 mil posts impulsionados em várias redes sociais, a rede dos vídeos curtos mostrou o maior crescimento no número de seguidores no ano de 2025. Na mediana, as marcas monitoradas cresceram 200% no canal.
Segundo o relatório, o engajamento também acompanhou a curva, mas dependeu de bastante investimento.
Já o alcance do Instagram vem registrando queda consistente no último ano em todos os formatos. Mesmo sendo o canal de maior audiência, a redução tem sido sensível.
O comportamento do público já mudou faz tempo, priorizando o feed dinâmico, descompromissado e com jeitão de entretenimento que o TikTok criou. Com isso, a Meta corre atrás para mudar seu algoritmo de uma maneira que possa viralizar conteúdos com a mesma velocidade e profundidade que a rival.
QUANDO A CONSISTÊNCIA RENDE FRUTOS
Estou fascinado com a atuação do social media Pedro Pedra, da funilaria e martelinho de ouro Box 12 de Campinas. O perfil consegue unir absolutamente tudo o que é prática viralizável: humor, entretenimento, bastidores, conteúdo real, personalidade… e tudo em um mesmo Reel.
Na tiktokização das redes, aquilo que antes parecia restrito a personagens de espuma como a Adênia e a corujinha do Duolingo e depois ficou acessível para atores e comediantes com aptidão de encarnar personagens. Hoje? Qualquer pessoa com disposição suficiente consegue conquistar os 15 segundos de atenção necessários para dominar o feed.
Mas não é uma fórmula. O perfil da Box 12 existe desde 2019, com vídeos sobre carros que não passavam de 100 views. Foi só a partir de 5 de janeiro deste ano que Pedro Pedra começou a abençoar o perfil, criando posts diários, personalidade própria e um storytelling consistente. E, claro, o primeiro vídeo de três dígitos de views chegou.
Se nem todos podemos ter o mesmo charme, pelo menos dá para mirar na mesma persistência com consistência.
A META TEM UMA REDE SOCIAL SÓ PARA ROBÔS?
A Meta comprou uma nova rede social feita apenas para agentes de IA chamada Moltbook e você não deve estar entendendo nada. Não se preocupe, qualquer pessoa que diga que está entendendo só está mentindo. Como tudo o que envolve a tecnologia atualmente, é muito mais especulação do que certezas.
O Moltbook foi criado por Matt Schlicht, desenvolvedor focado em IA que focou nos últimos anos em desenvolver agentes (os bots que não apenas conversam, mas fazem coisas) em um software chamado OpenClaw, que é gratuito e pode ser utilizado por qualquer pessoa para desenvolver seus próprios agentes.
Em algum momento, ele decidiu criar uma rede onde esses bots pudessem conversar entre si, trocar ideias e se relacionar. Nasceu o Moltbook.
A plataforma já tem mais de 10 mil bots que interagem entre si sobre os mais diversos temas, o que deixou o pessoal do Vale do Silício empolgadíssimo. Será que todas essas IAs estão criando de fato uma vida social ou estão apenas simulando uma? Ainda não sabemos.
A principal novidade que o Moltbook oferece no contexto atual é a possibilidade de agentes ativos e conectados entre si 24h por dia, atuando de diversas maneiras autônomas. Uma das apostas é que a Meta consiga acelerar seu desenvolvimento e aprendizados sobre IA a partir disso.
COLOCANDO O CLAUDE PRA TRABALHAR
Todo mundo por aí falando com o Claude é a LLM do momento pra quem quer usar IA para criar coisas incríveis. Ainda não tenho opinião formada, mas o Rodrigo Souza Alexandre, SEO da Nestlé, apareceu na minha timeline do LinkedIn trazendo um case de como ele criou um site inteiro a partir de uma ideia com a ajuda do app.
O site, Eventos de Marketing, é um agregador totalmente funcional, tem atualização automática e é ranqueável no Google. Tudo isso levou 20 dias para virar realidade a partir de uma ideia que estava há 2 anos na gaveta. Vale conferir o post do Rodrigo para acompanhar o passo a passo dessa criação e, ainda mais, entender se o Claude realmente muda o jogo.
De tudo o que ele relatou ali, o que mais me chamou a atenção foi a possibilidade de colocar toda a bagagem de marketing para criar algo de alta complexidade técnica, mesmo sem dominar todas as linguagens e tecnologias necessárias. “Profissionais que “usam IA” respondem perguntas mais facilmente. Profissionais AI-native exploram as bordas, constroem com ela, levam projetos ao público. A diferença não está na ferramenta. Está no que você cria com ela.”
BOCADITOS
Links rápidos para leituras demoradas.
• Cresce uso do TikTok como ferramenta de busca [Adobe]
• Google registra patente de tecnologia que cria LPs automáticas após anúncios [Forbes]
• O LinkedIn é a rede social que mais aparece em resultados de busca por IA [Semrush]
Obrigado pela leitura!
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Sim, isso mesmo, de volta e fazendo de tudo pra continuar.
Por Alberto Cataldi, diretor de marketing de conteúdo e jornalista. Me segue lá no Linkedinho que também compartilho coisas deste universo (e memes).
Quero saber o que achou! É só responder este email. Mande elogios, dúvidas e críticas.
Até a próxima!










Excelente reflexão. Acredito que pra além da baixa qualidade, um ponto negativo do alto volume de ai slop no youtube é justamente a disseminação desgovernada de fakenews. Roteiros produzidos por IA sem a devida revisão tendem a vim recheados de informações erradas. Conteúdos supostamente educativos ou mesmo destinado para públicos infantis com informações falsas pode gerar toda uma cadeia descontrolada de disseminação de mentira. O canal in a nutshell fez um teste de roteiro com IA e pra surpresa de ninguém veio cheio de informações falsas. Quando pesquisaram no youtube sobre o tema viram vídeos com IA contendo a mesma informação falsa do roteiro que eles geraram. Na era da desinformação o aumento de AI slops pode levar plataformas como o youtube para um poço sem fundo de fakenews.