RECHEIO — Atenção!
#104 - Quem grita mais alto chega primeiro ou some mais rápido?
#️⃣ Edição 104
A gente vive de chamar atenção
Em cada conteúdo que criamos, nos blogs, no YouTube, no Instagram, nas campanhas de Google… Não é simplesmente se destacar na multidão.
Antigamente, o trabalho de marca era fazer uma propaganda que capturasse a imaginação das pessoas durante um intervalo da novela ou criar um anúncio que se destacasse nas páginas da revista.
Mesmo durante o longo período em que a busca no Google era o que alimentava toda a internet, fazer um conteúdo bem avaliado pelo SEO era garantir uma posição alta na SERP para ter o clique certo do público certo.
Mas as redes sociais mudaram tudo isso. Por causa dele mesmo, do algoritmo.
Já não bastava os conteúdos de marcas disputarem a atenção com posts da família e gifs de gatinhos na timeline das pessoas. Quando o Facebook decidiu mudar a ordenação do feed de cronológico para algorítmico, todo mundo passou a ver apenas aquilo que a rede decidia como mais relevante.
Sabe o que é considerado “mais relevante”?
Os conteúdos com os quais você mais engajava. Então, se você dava mais atenção (cliques, likes, comentários…) para vídeos de acidentes ou notícias de assaltos, por exemplo, essa virava a régua para medir todos os demais conteúdos que você receberia.
Percebeu o perigo?
Se antes chamar atenção era algo a ser construído a partir da estratégia do conteúdo, agora é como o conteúdo tem que começar. Essa é a estratégia e, em muitos casos, toda a estratégia. A gente vive de chamar atenção.
A tal da Economia de Atenção é como a internet (e muita empresa fora dela) faz dinheiro hoje. Os algoritmos garantiram uma forma de monetizar nosso tempo e olhar para venda de publicidade por target em diversos formatos (interrompendo vídeos, aparecendo no topo dos resultados de busca, entre as fases dos joguinhos de celular…). Ou seja, mesmo pagando para aparecer mais no meio dessa guerra de atenção, você precisa ter uma capacidade de chamar AINDA MAIS atenção, senão você some.
Mas há, sim, maneiras de navegar isso de maneira estratégica e sustentável.
O segredo está no relacionamento
Afinal, é natural para nós: a gente dá mais atenção para quem importa mais pra gente.
A formação de uma comunidade próxima dos seus valores e do seu posicionamento consegue furar qualquer bolha de atenção. E ir além do viral, além do engajamento superficial com conteúdo temporário. É formar laços de interesse e comportamento.
“A diferença entre viralidade e comunidade é a diferença entre ser visto e ser lembrado. O conteúdo viral se espalha rapidamente e atinge muitas pessoas sem contexto ou acompanhamento. Pelo contrário, as comunidades dependem de normas compartilhadas e de um sentimento de pertencimento, dando às pessoas uma razão para voltar e participar.” [Fast Company]
Nesse cenário atual de redes sociais fragmentadas e descentralizadas, transformar o relacionamento e o conteúdo da sua marca em um ponto de conexão entre pessoas é a chance de retomar o controle de onde a relação entre você e seu cliente acontece.
Esse comportamento ganha ainda mais força fora do digital, com encontros no mundo real e eventos que permitam trocas e reforço de laços. E a razão é bem óbvia:
Estar no momento é dedicar atenção. Uma relação de comunidade demanda compromisso acima da dispersão das redes sociais. Toda comunidade é uma bolha isolada do contexto externo, onde gritar não é necessário para ser ouvido.
SAUDADES DO VELHO TIKTOK
Uma pesquisa da Harris Poll nos EUA revelou que a Geração Z já está nostálgica com o TikTok (que existe há apenas 6 anos). Nos resultados, 73% dos Gen Z ativos do app acham que os conteúdos parecem muito performáticos, enquanto 53% deles acham que o app tem sido muito censurado. De todos, 79% tem saudades do TikTok dos tempos de 2020.
Essa nostalgia toda parece ser causada pela rápida mudança que a plataforma sofreu nos últimos 3 anos. Além de entrar em uma competição direta com o YouTube, criando formatos mais longos e mais voltados aos creators, a entrada de muitas (muitas) marcas e anúncios parecem estar tirando o barato da juventude.
Acontece que a grande invenção da plataforma — um algoritmo personalizado capaz de entregar muito mais dos mesmos conteúdos que você já curte — acabou reinventando toda a maneira como as redes sociais funcionam. Os conteúdos performáticos e de apelo comercial são justamente a nova realidade da internet e o TikTok, cada vez mais, se torna apenas mais uma vítima de uma lógica de consumo cada vez mais frugal e temporária. E isso sem a gente nem saber como vai se dar a transferência de propriedade da operação nos EUA para a Oracle e (sim) para o governo dos EUA.
Há quem aposte que o novo movimento social online vai migrar de vez para comunidades cada vez mais nichadas e limitadas. Mas enquanto isso não acontece, vamos começar a presenciar um derretimento do apelo social da plataforma, provavelmente com conteúdos cada vez mais irônicos sobre a própria cultura que ela entrega.
TÃO DEIXANDO A GENTE SONHAR…
A Meta segue provocando a gente com a possibilidade de colocar links na legenda das fotos no Instagram. Desta vez, alguns usuários do plano pago estão participando de um teste onde o formato clicável aparece disponível. Isso já aconteceu antes com públicos limitados e nunca escalou — supostamente por uma determinação da Meta de não deixar os usuários saírem da própria plataforma. Mas algo novo na estratégia da companhia pode mudar isso: a possibilidade de oferecer links pagos, algo que começaria através de anúncios, mas evoluiria como opção para usuários de contas (pagas) de empresas. Ou seja, ainda não deverá ser o fim dos Link In Bio.
A FILHA QUE FEZ
Tá cheio de perfil por aí que entrou nessa nova trend: colocar o “filho adolescente” para apresentar o negócio/empresa/produto de um jeito bem desanimado e desinteressado. De todos os casos que eu mapeei aqui, esse da Pousada Mãe D’Água parece ter sido o pioneiro em escala, com mais de 14 milhões de views. O perfil é competente, com atualizações frequentes e bastante prova social, parcerias e anúncios. Mas foi neste post que a coisa saiu totalmente do patamar.
Além de ser um formato fácil de fazer e de entender, o que mais me surpreendeu é algo que já vem dando as caras há algum tempo nas redes: conteúdos de baixo esforço.
Além de fugir de toda a complexidade de produção, edição e roteiro, esse formato se apoia totalmente no aspecto amador da coisa, usando a tosquice à favor. Em um feed cada vez mais dominado por slop de IA e conteúdos performáticos (ler acima), essa é uma tendência que certamente vai aparecer mais.
Lembre-se: as redes sociais morreram e todo mundo virou criador de conteúdo. Isso não quer dizer que todos agora querem imitar a Netflix, mas sim seguir o padrão daquele seu vizinho que parece com você, mas conseguiu alcançar mais pessoas contando uma piada que poderia ter sido sua. Próximo e alcançável é o conteúdo que realmente prolifera.
ATÉ QUEM FAZ IA SOFRE PRA USAR
Fui em um evento da Adobe semana passada sobre Inteligência Artificial, e como meu compromisso é sempre falar sobre todos os eventos que eu vou (me chamem pra eventos!), vou destacar aqui 3 pontos fundamentais sobre o uso de IA na rotina que Jeff Canada, Marketing Lead da OpenAI, levou para sua apresentação:
O maior erro, segundo a experiência dele, foi querer usar a IA para fazer direto o produto final. Isso gera muita frustração e mudanças no prompt. Ao invés disso, divida o produto final nas etapas reais que ele exige. Sendo assim, não peça “um email de campanha”, mas em fases de: ler briefing, entender o briefing, entender o público, entender a campanha, elaborar a campanha e, aí sim, escrever o email.
Pessoas atrapalham a execução, mas a IA atrapalha a criação. Jeff reforçou que toda a ideação e elaboração devem ser feitas por um humano com visão do contexto e bagagem da demanda. O mesmo na hora da aprovação final, que precisa de entendimento humano. Durante a execução? Deixe tudo com a IA, sempre quebrando em etapas (como disse acima).
Comandar uma equipe de bots não é o mesmo que uma equipe de humanos. A ideia é sempre focar primeiro no que pode ser automatizado e, a partir daí, criar novas etapas que são sobre gerenciar essas demandas de IA. Misturar tarefas humanas com tarefas de robôs atrapalha demais a produtividade.
BOCADITOS
Links rápidos para leituras demoradas.
• Relatório de tendências do YouTube sobre futebol em ano de Copa [Maia Mau/Google]
• Creators dominaram o SXSW. E as marcas? [Marketing Brew]
• Meta anuncia o fim do Horizons. É o fim do Metaverso? [Wired]
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Por Alberto Cataldi, diretor de marketing e jornalista. Me segue lá no Linkedinho que também compartilho coisas deste universo (e memes).
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